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Por uma relação mais verdadeira no espetáculo do futebol
10 de May de 2012 – 14:04 | 4 Comentários

Nada contra o merchandising, longe disso. Mas acho que a Brahma poderia explorar de maneira muito menos grotesca do que essa. Estampar a logomarca na bandeira estendida pela torcida de forma a chamar mais à …

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E aí Kamel, cadê o Ali?

Submitted by Diogo on 4 de October de 2007 – 16:387 Comments
E aí Kamel, cadê o Ali?

O texto do Ali Kamel foi feito em cima do texto de um espanhol, do El Pais.

Acontece que o correspondente do El Pais não ouviu o governo em reportagem sobre livro didático. Se tivesse ouvido, teria descoberto que o livro foi adotado durante o governo de FHC e saiu de circulação durante o governo Lula. Leia abaixo o artigo do jornalista sobre o livro de Mario Schmidt

E a pergunta fica, e agora Kamel?

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Publicado no Jornal O GLOBO de 18 de setembro de 2007 na seção Opinião

O que ensinam às nossas crianças

Ali Kamel

Não vou importunar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia, nada disso. Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo. O psicanalista Francisco Daudt me fez chegar às mãos o livro didático “Nova História Crítica, 8ª série” distribuído gratuitamente pelo MEC a 750 mil alunos da rede pública. O que ele leu ali é de dar medo. Apenas uma tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Impossível contar tudo o que há no livro. Por isso, cito apenas alguns trechos.

Sobre o que é hoje o capitalismo: “Terras, minas e empresas são propriedade privada. As decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal. Para ampliar as vendas no mercado consumidor, há um esforço em fazer produtos modernos. Grandes diferenças sociais: a burguesia recebe muito mais do que o proletariado. O capitalismo funciona tanto com liberdades como em regimes autoritários.”

Sobre o ideal marxista: “Terras, minas e empresas pertencem à coletividade. As decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o (sic) bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à (sic) toda a população. Não há mais ricos, e as diferenças sociais são pequenas. Amplas liberdades democráticas para os trabalhadores.”

Sobre Mao Tse-tung: “Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.”

Sobre a Revolução Cultural Chinesa: “Foi uma experiência socialista muito original. As novas propostas eram discutidas animadamente. Grandes cartazes murais, os dazibaos, abriam espaço para o povo manifestar seus pensamentos e suas críticas. Velhos administradores foram substituídos por rapazes cheios de idéias novas. Em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes. (…) No início, o presidente Mao Tse-tung foi o grande incentivador da mobilização da juventude a favor da Revolução Cultural. (…) Milhões de jovens formavam a Guarda Vermelha, militantes totalmente dedicados à luta pelas mudanças. (…) Seus militantes invadiam fábricas, prefeituras e sedes do PC para prender dirigentes “politicamente esclerosados”. (…) A Guarda Vermelha obrigou os burocratas a desfilar pelas ruas das cidades com cartazes pregados nas costas com dizeres do tipo: “Fui um burocrata mais preocupado com o meu cargo do que com o bem-estar do povo.” As pessoas riam, jogavam objetos e até cuspiam. A Revolução Cultural entusiasmava e assustava ao mesmo tempo.”

Sobre a Revolução Cubana e o paredão: “A reforma agrária, o confisco dos bens de empresas norte-americanas e o fuzilamento de torturadores do exército de Fulgêncio Batista tiveram inegável apoio popular.”

Sobre as primeiras medidas de Fidel: “O governo decretou que os aluguéis deveriam ser reduzidos em 50%, os livros escolares e os remédios, em 25%.” Essas medidas eram justificadas assim: “Ninguém possui o direito de enriquecer com as necessidades vitais do povo de ter moradia, educação e saúde.”

Sobre o futuro de Cuba, após as dificuldades enfrentadas, segundo o livro, pela oposição implacável dos EUA e o fim da ajuda da URSS: “Uma parte significativa da população cubana guarda a esperança de que se Fidel Castro sair do governo e o país voltar a ser capitalista, haverá muitos investimentos dos EUA. (…) Mas existe (sic) também as possibilidades de Cuba voltar a ter favelas e crianças abandonadas, como no tempo de Fulgêncio Batista. Quem pode saber?”

Sobre os motivos da derrocada da URSS: “É claro que a população soviética não estava passando forme. O desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (…) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas… Para nós, do Terceiro Mundo, quase um sonho não é verdade? Acontecia que o povo da segunda potência mundial não queria só melhores bens de consumo. Principalmente a intelligentsia (os profissionais com curso superior) tinham (sic) inveja da classe média dos países desenvolvidos (…) Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias. (…) Karl Marx não pensava que o socialismo pudesse se desenvolver num único país, menos ainda numa nação atrasada e pobre como a Rússia tzarista. (…) Fica então uma velha pergunta: e se a revolução tivesse estourado num país desenvolvido como os EUA e a Alemanha? Teria fracassado também?”

Esses são apenas alguns poucos exemplos. Há muito mais. De que forma nossas crianças poderão saber que Mao foi um assassino frio de multidões? Que a Revolução Cultural foi uma das maiores insanidades que o mundo presenciou, levando à morte de milhões? Que Cuba é responsável pelos seus fracassos e que o paredão levou à morte, em julgamentos sumários, não torturadores, mas milhares de oponentes do novo regime? E que a URSS não desabou por sentimentos de inveja, mas porque o socialismo real, uma ditadura que esmaga o indivíduo, provou-se não um sonho, mas apenas um pesadelo?

Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos. É isso o que deseja o MEC? Se não for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém.

ALI KAMEL é jornalista.

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Publicado na Carta Capital nº 464 de 03 de outubro de 2007 p. 24 a 28

A história como ela é

por Ana Paula Sousa

O pote de ouro do livro didático motiva uma guerra ideológica e comercial em torno de um compêndio de história

Mario Schmidt é uma espécie de Paulo Coelho dos livros didáticos. A proximidade com o mago, antes que se diga que o autor é, além de “comunista”, esotérico, dá-se no campo dos números. Schmidt, autor da coleção Nova História Crítica, vendeu cerca de 10 milhões de exemplares no País e estima-se que tenha chegado às mãos de 28 milhões de alunos. Schmidt ficou enfim famoso.

Nas últimas semanas, protagonizou uma série de reportagens que o acusam de disseminar a ideologia comunista pelas escolas brasileiras. No jornal O Globo, a obra foi definida como “um livro didático bisonho, encharcado de ideologia”, que fez Ali Kamel sentir-se do mesmo jeito que, um dia, se sentiu a atriz Regina Duarte. “É de dar medo”, escreveu, no jornal, na terça-feira 18, o diretor de jornalismo da Rede Globo.

Estava dada a largada para uma série de artigos e editoriais uníssonos. Nova História Crítica é uma das 53 coleções excluídas na última avaliação do Ministério da Educação (MEC), que analisou 144 títulos submetidos ao Plano Nacional do Livro Didático (PNLD). Schmidt, publicado pela Nova Geração, uma das últimas editoras pesospenas num ringue de pesos pesados, tornou-se best seller no mais rentável segmento do mercado editorial brasileiro.

Basta dizer que, num País que consome, em média, 2,5 livros por ano, o governo adquiriu, em 2007, 121 milhões de exemplares. Trata-se do maior programa de aquisição de livros do mundo. E o cliente é o Estado. Não é preciso ter faro especialmente apurado para intuir que por trás do barulho capaz de jogar na fogueira a obra de Schmidt esconde-se uma disputa a um só tempo ideológica e econômica.

No meio do caminho que um livro percorre antes de chegar aos alunos, há mais que uma pedra. Há disputas políticas, há uma compra de 560 milhões de reais em 2007 e há interesses financeiros atiçados pelo desempenho do grupo espanhol Santillana, cliente da consultoria do ex-ministro Paulo Renato Souza que ultrapassou o Grupo Abril no ranking do PNLD. A professora de história Margarida de Oliveira, membro da comissão técnica para o PNLD, está longe de integrar o coro de defensores do livro de Schmidt, até porque foi sob a sua gestão que a obra saiu da lista de compras.

Ainda assim, ela espantou-se com a saraivada de acusações contra a coleção. “O que me chamou a atenção foi o fato de os jornalistas, geralmente tão atarefados, se ocuparem de um livro que não será mais comprado pelo governo”, diz a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

“Além disso, não entendi o esforço para vincular o livro ao governo Lula, uma vez que, ao contrário do que tentou se mostrar, ele foi aprovado no governo FHC e descartado na atual administração.” Tal detalhe parece ter escapado ao próprio ex-ministro Paulo Renato Souza, hoje deputado federal. “Quando estávamos no governo, evitávamos viés ideológico na escolha dos livros didáticos. Essas diferenças devem ser respeitadas, mas, infelizmente, estamos vendo que a prática se perdeu com o tempo”, declarou, no site do PSDB.

Nova História Crítica entrou na seleção do MEC em 2002, ano de Paulo Renato à frente da pasta. Desde 1995, a lista é elaborada por 31 pareceristas, recrutados em universidades e divididos por especialidade. O trâmite começa no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da USP, apto a verificar gramatura do papel, tamanho da fonte e outras especificidades técnicas, e termina na elaboração de um guia.

“Um livro aprovado não é sinônimo de livro perfeito, é apenas a garantia de que não tem erros ou estereótipos. Apresentamos uma lista e o professor escolhe a obra que mais o agrada, até de acordo com sua ideologia”, observa Margarida. No programa deste ano, por exemplo, o professor tinha 19 livros de história à escolha.

O campeão de solicitações foi o de Schmidt. Duplamente indignado – com a eliminação do livro do programa e com a cobertura da imprensa –, Arnaldo Saraiva, dono da Nova Geração, diz tratar-se do livro didático “mais vilipendiado e, ao mesmo tempo, menos lido pelos detratores”. “O senhor Ali Kamel tem o direito de não gostar de certos livros didáticos. Mas por que ele julga que sua capacidade de escolha deveria prevalecer sobre a de dezenas de milhares de professores?”, pergunta.

Chama a atenção, nas reportagens sobre o livro, a omissão de trechos complementares às frases “tendenciosas” citadas (leia a análise dos livros didáticos à pág. 29) e a reprodução dos mesmos trechos em todos os jornais. Saraiva, que seguiu trilha própria depois de trabalhar na editora da família, atrela a ofensiva, sobretudo, à entrada do capital internacional no setor.

“Existe hoje um ataque direto à única editora didática que não se vendeu ao capital externo, especialmente ao espanhol.” A frase, que pode soar conspiratória, encontra eco entre estudiosos do setor. Célia Cassiano, na tese de doutorado em Educação, recentemente defendida na Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, debruça-se sobre o mercado editorial e procura entender de que modo o movimento empresarial, e a forte presença espanhola no setor, tem afetado o conhecimento que chega às escolas.

Ela diz que, no mundo todo, empresas como Hachette, Hatier, Nathan, MacMillan, Longman, Anaya e Santillana investem em livros didáticos. No Brasil, até os anos 90, o mercado estava concentrado em grupos familiares. A partir daí, as editoras começam a ser abraçadas por grupos empresariais e desenha-se o “oligopólio” esmiuçado por Célia. De 1985 a 1991, houve a participação de 64 editoras do PNLD, a despeito de 84% do fornecimento de livros ter ficado nas mãos de apenas sete grupos (Ática, Brasil, FTD, Ibep, Nacional, Saraiva e Scipione). Em 1998, o número caiu para 25.

Em 2006, apenas 12 editoras fizeram parte do programa. “Sempre houve concentração. A diferença, agora, é que as editoras pequenas desapareceram”, pontua Célia. Nos anos 2000, movimentos importantes aconteceram. Em 2001, a Santillana, braço editorial do maior grupo de mídia espanhol, o Prisa, que faturou 4 bilhões de euros em 2005, adquiriu a Moderna, criada pelo professor de química Ricardo Feltre.

E, se a alguém causou estranheza que o El País tenha escrito, a propósito de Schmidt, que “el libro de texto ensalza el comunismo y la revolución cultural china”, cabe lembrar que o jornal pertence ao Grupo Prisa. O capital estrangeiro chegou também por meio do grupo francês Vivendi, que se associou à Abril na compra da Scipione e da Ática, líder do segmento didático e infanto-juvenil por vários anos. Em 2004, o Vivendi se foi e o Grupo Abril assumiu o controle acionário total das editoras.

“É verdade que o mercado evolui de forma concentrada. Mas, para você ter uma idéia da complexidade, basta dizer que um livro que será comprado em 2009, está ficando pronto agora”, diz João Arinos, presidente da Abrelivros, a associação que reúne os editores de livros didáticos, e diretor do Grupo Abril. “É um investimento enorme que corre o risco de ser todo jogado fora, caso o livro não seja aprovado.

E, se você olhar, no resto do mundo a concentração é ainda maior.” Mônica Messenberg, diretora de relações institucionais do Grupo Santillana, diz que a própria característica das compras governamentais favorece os grandes grupos. “O governo paga, em geral, 20% do valor cobrado pelas livrarias. Temos uma margem de lucro pequena, que só compensa se você trabalhar em escala.

Há, inclusive, muita editora pequena que procura as grandes para publicar seus livros.” Mônica sabe do que fala. Antes de se tornar executiva do grupo espanhol, era presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), no ministério de Paulo Renato. O expressivo crescimento da editora no segmento deixa os concorrentes com a pulga atrás da orelha, até porque a ligação com o governo anterior não se restringe à presença de Mônica.

No site da Paulo Renato Souza Consultores, que promete “acesso direto a organismos, fundos e empresas internacionais com interesse em desenvolver parcerias e/ou investimentos no setor educacional brasileiro” e “desenvolvimento de estratégia de entrada no mercado educacional brasileiro”, Santillana e Moderna figuram como clientes. “O crescimento foi grande porque passamos a investir no mercado público.

Antes, o PNLD não era encarado como significativo para a editora”, justifica Mônica. Sobre o possível conflito de interesses e as informações privilegiadas, rebate: “Eu estava havia seis meses fora do MEC quando aceitei o posto. Além disso, não se configura conflito de interesses porque eu não negocio preços com o governo. E como a Moderna nem era focada nesse mercado, não dá sequer para dizer que eu os tivesse beneficiado antes”.

O deputado Paulo Renato não atendeu à reportagem de CartaCapital. Disse apenas, por meio do assessor, não ver conflito de interesses. Não parece absurdo, no entanto, questionar sua legitimidade para, no Parlamento, arvorar-se em defensor das causas educacionais e apresentar projetos que versem sobre os critérios do PNLD, como apregoou por estes dias. Quanto mais se puxam os fios desse novelo bilionário, mais interesses difusos aparecem.

“Ao se falar de livro didático, nada pode ser desprezado. Temos sempre de lembrar que esse mercado depende, de maneira radical, das compras do governo e que a relação entre editoras e Estado é antiga”, anota o professor Kazumi Munakata, coordenador da disciplina História do Livro Didático, na PUC-SP. Formado em filosofia, doutor em História da Educação e com passagens pela Abril Cultural e pelo Telecurso, da Globo, ele arrisca algumas hipóteses para a ofensiva contra o livro de história. “Primeiro, temos de lembrar que vivemos uma onda de conservadorismo.

Ao mesmo tempo, existe alguma coisa em jogo que pouca gente sabe o que é. Pode ser tanto uma tentativa de desestabilizar o governo quanto uma reorganização de forças no mercado ou uma tentativa de furar um esquema cheio de barreiras”, analisa Munakata. Ao falar de barreiras, chega-se a dois pontos. Um deles, diz respeito à restrição aos divulgadores que atuavam nas escolas.

Em 2006, o MEC criou regras que limitam a propaganda das editoras, para evitar que os professoras sejam influenciados indevidamente. As novas regras quebraram as pernas da Ática e da Scipione, pertencentes à Abril. A outra barreira imposta pelo PNLD atinge uma ponta menos visível do mundo do material didático, que são os chamados sistemas de ensino.

Nascidos nos cursinhos pré-vestibulares, os sistemas de grupos como COC e Positivo expandiram-se e, hoje, são publicados também por editoras como a Moderna e a Abril. “Aliada à forte concentração dos grandes grupos chama a atenção que, gradativamente, a maior parte dessas empresas começou a comercializar sistemas de ensino, inclusive para a rede pública, nem sempre de forma transparente”, diz Célia Cassiano.

A revista Veja, da Abril, curiosamente, fez uma matéria que dizia ser o sistema COC a sétima maravilha do mundo e, alguns meses depois, desancou o método. Correndo à margem do PNLD, os sistemas de ensino são vistos, por especialistas em educação, como uma opção arriscada. “É um pouco a idéia do livro resumido, com objetivos práticos, que deixam a formação humana de lado”, opina Munakata.

“Mas, nos próprios livros didáticos, nota-se uma tendência a enlatados, a livros que vêm de fora, padronizados. Me parece que se instala a crença de que o livro pode substituir o professor e também de que escola só serve para preparar para o vestibular.”

Célia Cassiano lembra que, em qualquer tempo, o livro didático fica no centro de uma disputa real e simbólica. “Em todos os países, o livro didático é visto como um instrumento de poder”, diz. No caso brasileiro, a relação direta entre Estado e editoras de livros didáticos remonta ao Estado Novo, de Getúlio Vargas, quando foi criado o primeiro programa de leitura.

Entre 1964 e 1984, houve a intervenção estatal que criou livros até hoje famosos pelas distorções. O PNLD foi implantado em 1985, no governo Sarney, e começou a valer em 1986. Até então, a aquisição restringiase a bibliotecas e alunos carentes. Para ter uma idéia, em 1971, o governo comprou 7,2 milhões de livros.

Em 1986, com a implantação do programa, houve um salto, para 45 milhões, mas a média logo caiu para cerca de 12 milhões. “Até 1996, o volume era menor e o professor é que indicava os títulos a serem comprados. A questão da distribuição também era problemática. Houve denúncias de irregularidades entre distribuidoras e, em lugares distantes, havia livros que chegavam em setembro, quando o ano letivo estava se encerrando”, relata Munakata.

O problema de distribuição foi minimizado com a entrada dos Correios no processo e a lista, até o petardo lançado por Ali Kamel, recebera muito mais elogios que críticas. “O que causa um grande desconforto ao Ministério da Educação são algumas vozes que, talvez sem perceber, estavam quase propondo a volta da censura”, diz o ministro Fernando Haddad.

“Na minha opinião, há, subjacente a essas posturas autoritárias, uma desconfiança da capacidade do professor. Então se desconfia de todos: da família, que também não participa do ato educativo, do professor, dos avaliadores das universidades.” Munakata, por sua vez, vê nos ataques ferozes ao livro de maior sucesso nas escolas brasileiras a reedição de uma história antiga.

“Quando o Montoro foi eleito (governador de São Paulo, em 1982), houve reforma curricular. O currículo de história levou dez anos para ser aprovado porque os jornais diziam que a reforma tinha tendência comunista”, recorda.

“Vira e mexe, a imprensa cria essa falsa polêmica. Curiosamente, depois dos escândalos dos livros da ditadura, que inventavam a história, houve uma reação dos autores e o tom dos livros passou a ser, basicamente, progressista. Até um autor como Joaquim Silva, superconservador, virou progressista, depois de morto, nas reedições da FTD.” A imprensa parece seguir na mão contrária.

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Publicado no Blog do Nassif em 22 de outubro de 2007 às 17:42

O “Fantástico” e a visão transgressora da história

Da Biblioteca Nacional

É muita história? Quadro do Fantástico sobre História do Brasil é criticado por historiadores, mas na rua o povo gosta Catharina Wrede

Todo domingo à noite, um novo episódio de ficção sobre a História do Brasil invade as telas de milhões de brasileiros. Ficção? Essa era a opinião da funcionária pública Maria de Fátima Leão, de 45 anos, sobre o quadro “É Muita História”, do programa Fantástico, da Rede Globo. A telespectadora conta que se surpreendeu quando o programa informou estar comprometido com a verdade: afinal, Dom Pedro I proclamou a independência do Brasil porque teve “um dia de fúria”.

Apresentado pelo jornalista e escritor Eduardo Bueno e pelo jornalista Pedro Bial, o quadro tem o intuito de aproximar a História do Brasil do povo e torná-la interessante aos seus olhos. Mas o resultado é polêmico entre professores e historiadores. Até que ponto a bem-sucedida iniciativa da dupla compromete o conhecimento histórico produzido nas Universidades?

A Associação Nacional de Professores Universitários de História (Anpuh) vem discutindo a questão. Para Manoel Salgado Guimarães, presidente da Associação que congrega dez mil historiadores, o problema não é a popularização da História, que considera necessária, mas sim o tom do programa.

“A forma como a História é transmitida no programa é que nos irrita na Anpuh. O tom é sempre de galhofa. Parece, pelo quadro, que fazer História é uma pilhéria. Por que só conseguimos lidar com o nosso passado dessa maneira? Por que não uma abordagem séria dos fatos, com múltiplas visões que ampliem os horizontes do público? O programa se prende a um tipo de divulgação que a historiografia já rompeu há muito tempo”, analisa Manoel Salgado.

Para a aluna de História da PUC-Rio Patrícia Costa Grigorio, o programa é uma “criação infeliz” e não atinge a meta de levar conhecimento para a população.

“O quadro me parece mais uma atração humorística ou de entretenimento que tem como pano de fundo alguns fatos e personagens históricos, mas não problematiza as várias visões historiográficas”, diz.

Eduardo Bueno explica que ele, Bial e João Carrascosa buscaram fazer uma seleção que se equilibrasse entre datas nacionais (Independência, República e Abolição), temas conhecidos (Tiradentes, chegada da Família Real e Brasil holandês) com eventos menos estudados, como França Antártica e bandeirantes. A série termina com pré-história. “Esse episódio nos permitiu indagar quem, como e quando decidiu o que era história o que não era. Ainda não vi esse episódio montado, – e eles mudam muito na edição – mas na gravação foi meu favorito”, conta.

A produção do “É Muita História” é de alto nível. Não há como não reconhecer a boa pesquisa feita para a elaboração dos episódios, os ricos recursos visuais, a cenografia, montagem e os temas, que até agora foram seis: independência do Brasil, o boi voador de Maurício de Nassau, Tiradentes, a França Antártica, os Bandeirantes e a República. Mas será que tais recursos são suficientes para se fazer um programa de qualidade?

Na opinião do professor de História do Brasil Colônia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Jean Marcel Carvalho França, Bueno apresenta uma visão “riponga e debochada” da história. “É uma visão marcadamente anos 70, transgressora, que lembra o Hélio Oiticica dizendo ‘Sou marginal, sou herói’”, compara. Para ele, a dupla de jornalistas faz uma “má história” com recortes de “fait divers” sem relevância. Além disso, Carvalho França não vê nada de inovador no quadro e diz que o desejado diálogo da história com o público não acontece.

As críticas negativas sobre o programa perturbam Bueno. “Não tenho muita paciência para responder críticas de quem ainda não percebeu o espírito do quadro, nem seu imenso, gigantesco, oceânico, monumental valor”, afirma, sem perder o estilo irônico.

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